segunda-feira, 15 de agosto de 2011

terça-feira, 2 de agosto de 2011

A máquina da máquina



Durante uma atividade proposta em sala de aula, rola o seguinte diálogo:

ALUNO: ...e o que teu pai faz?

ALUNA: Meu pai vende máquina.

ALUNO: Máquina?! De quê?

ALUNA: De fazer máquinas!

ALUNO: ( ! )

...

ALUNO: Tá, e que mais que teu pai faz?

ALUNA: Ele também vende peças.

ALUNO: Peças do quê?

ALUNA: ... das máquinas que servem pra fazer outras máquinas!

sábado, 30 de julho de 2011

O que ficou da leitura de "O morro dos ventos uivantes", de Emily Bronte.



Se há o que aprender com a literatura - sobretudo a boa literatura - é viver. Aprender a aprender. Aprender a simplesmente sentir, pular as convenções, dar-se o luxo de ser simplesmente matéria humana. E esse é meu encantamento pela literatura: a palavra metafórica sempre se renova e, ao longo da leitura de uma história incrível, me impressiono com a maneira como simples códigos decifrados tomam forma e interferem na reinvenção das minhas próprias experiências.

Do que fica nessa vida

Me resta a memória dos livros que li agora.
Meus personagens de lata, minhas paragens inóspitas, minhas imagens secretas
Meus vãos.
Minhas nuvens de sangue, meu choro vago
O riso convulso de quem de fato não existe
A morte que simplesmente morre
A noite 
O mar 
A exatidão das minhas frestas.

terça-feira, 12 de julho de 2011

O gigante

"É preciso ser leve como um pássaro, não como uma pluma".
(Paul Valéry)
O recomeço
É um gigante no escuro
Que quando vem a luz
Estampa um sorriso vacilante
Entre a timidez da incerteza
E a expectativa da possibilidade.

Recomeço pois
A passos miúdos
Descobrindo que as pedras se movem
Ao longo do caminho
E o gigante - companheiro orelhano
É meu anjo sem asa
Sem fé
Sem rosto.

domingo, 10 de julho de 2011

Retornando aos poucos



Tu peux naître au bon endroit
Avec une mère qui t'aime
Un père qu'est là
Une famille entière autour de toi
Un amour sincère pour guider tes pas
Tu peux naître orphelin
Dans un endroit synonyme de rien
Avec un quignon de pain pour destin
Et en horreur le genre humain
Mais...
C'que tu fais
C'est ta réalité
C'que tu fais
C'est ta réalité
Tu peux être soudanais
Entre la charia et l'armée
Voir ton avenir enchaîné
A ce système que tu hais
Alors tu vis ta vie
D'un trait
Sans savoir qui tu es
Avec pour seul fait
Ta misère et ta mosquée
Tu peux être soudanais
Entre la charia et l'armée
Être prêt à prendre des coups de fouet
Parce que tes dreadlocks ont poussé
Te boire une rebiè
T'évader à danser
En sachant que c'que tu fais
Pourrait t'emprisonner
Tu peux vivre
Une cité pourrie
Avec ton pitt et tes amis
Ton hall, ta "8-6", ton te-shi
Et la police comme seule ennemie
Tu peux vivre
Une cité pourrie
Avec ton week-end comme seul ami
Ces deux jours sacrés pour une autre vie
Prendre le temps de bouger
Trouver tes envies
Tu peux tabasser tes gosses
Entre ta femme et ton divorce
Tu peux trouver la vie si féroce
Qu'alors tu baignes tu passes en force
Tu peux ne pas faire d'enfant
Te dire qu'être père
Ca prends du temps
Revoir ta vie d'adolescent
Et pas refaire
C'qu'ont fait tes parents
Tu peux choisir la musique
Avoir un père directeur artistique
Connaître Santi et ses indics
Qui feront de toi
Une star académique
Tu peux choisir la musique
Pour avancer pour que ça communique
Prendre en chemin le monde artistique
Pour lui garder sa fierté mystique

sábado, 19 de março de 2011

Achados

Mexer em gaveta velha sempre rende boas lembranças. Mas o engraçado foi agora encontrar, depois de mais de dez anos, um caderno de poesias. Velhas. Ingênuas. E o que me surpreendeu não foi nem isso, mas sim encontrar, nesse caderno uns poucos textos em prosa que escrevi... Não tenho o menor registro deles na minha memória, mas enfim.

Segue um deles, bizarro, atemporal, mal-escrito e quase apócrifo, não fosse a identificação da minha caligrafia. Não que eu seja uma Alfonsina Storni da vida, uma Florbela Espanca, ou mesmo uma Clarice Lispector hoje em dia, mas pelo visto o tempo fez um bem pras minhas palavras...

"Ele já sem forças naquela cama asséptica do hospital, olhando para as paredes do quarto assépticas, procura a luminosidade do sol que entra pelos frisos da janela. Vira-se para Ela que, sentada na poltrona auxiliar, tece os últimos fios daquilo que, sem saber, seria sua própria mortalha numa manhã cancerosa de outono.

"Enfim, casaste com meu dinheiro, não foi? Ela, impávida, dirige a ele um sorriso frio e já exausto. Volta para suas agulhas. Agora só falta dizer que nunca havias pensado nisso, o que é isto, estás ficando maluco. Mas eu bem sei, suportaste a vida ao meu lado, calada, casada comigo e amancebada com meu dinheiro.

"Ela já não levanta os olhos a ele. Apenas suspira e segue seu tramar. Ele, cansado e fraco, dá um gemido estertoroso sem perceber o movimento da mulher, que apaga a luz da cabeceira, acrescenta mais uma dose de morfina no soro dele e vai embora dizendo entre os dentes: velho escroto".

domingo, 20 de fevereiro de 2011


Inspirada no texto do excelente blog da Anne, posto aqui uma das inúmeras pérolas que ouço em sala de aula, a título de comemorar o retorno, o eterno retorno.


PROFESSORA: Os poetas do Mal-do-século eram boêmios de carteirinha...

TURMA: (sussurros) Uau, que legal!

PROFESSORA: Passavam dias e noites bebendo nas tavernas...

TURMA: (sussurros) Esses sabiam das coisas!

PROFESSORA: Mas, como vocês sabem, o álcool diminui significativamente a quantidade de vitamina C no corpo, o que deixa a imunidade vulnerável. Assim, eles morriam muito cedo por causa de tuberculose e de doenças venéreas...

(Silêncio na turma)

PROFESSORA: ... bom, quanto à poesia dessa época, podemos ver a presença de hipérboles e outras figuras de linguagem. Alguma dúvida?

ALUNO: Tá, sora, então é só tomar um comprimido de vitamina C no outro dia que tá beleza?

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

De Tucuruvi a Jabaquara (linha azul)

"São Paulo" (1924), de Tarsila do Amaral

Desço do metrô
Na dança ritmada dos passos apressados
São Paulo é formigueiro em profusão
Onde tudo acontece e onde nada se percebe.

Sou turista entre trabalhadores incansáveis
Consumo as ruas da cidade, souvenires de concreto
Sugo suas vielas, as avenidas, os museus,
A música incidental que vem dos ônibus,
A Paulista com a Augusta,
Os bares na Vila Madá, suas galerias obscuras,
Seus outdoors, o inusitado.

Quero beber o fluido que corre
Do seu amanhecer apressado
Sou turista no mercado municipal
Entre nordestinos, gaúchos, orientais
Essencialmente paulistanos
E sorvo dessa essência
Minha alma rapidamente entende e se adapta
Quer agregar, quer entranhar, conhecer.

Ainda que encantada,
Com os olhos cheios desse alvorecer colorigo e amargo,
Com o coração dividido
Entre a Ipiranga e a avenida São João,
Volto simplesmente por não pertencer.