quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Cheiros



Ponho o nariz pra fora da sacada e sinto o cheiro do cachorro sujo da vizinha que mora no térreo. Se o sol ameniza alguns odores, potencializa outros bem piores.

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Uma vez senti um cheiro apetitoso que vinha da cozinha. Perguntei à minha mãe o que estava preparando no fogão, ao que ela riu e disse que fervia os panos da casa.

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Às vezes confundo o cheiro do papel queimando com o do açúcar caramelizado, o que já me rendeu prazeres furtivos seguidos instantaneamente de um breve pavor, ao subir as escadas do meu prédio.

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O cheiro de vela apagada que a alguns lembra aniversário a mim lembra fim de velório e, por consequência, o cheiro do pó-de-arroz que a bisa sempre usava.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009


Dói saber das coisas.

Dói vestir a máscara-clichê de palhaço pra assistir sentada na poltrona de casa o sarro que Sarney, Paulo Duque, Yeda Crusius, seu ex-marido e companhia (i)limitada estão tirando de mim, que em prática estou de mãos atadas. Cada vez mais eu invejo a Velhinha de Taubaté e aqueles que se limitam a assistir novela e a ler livros de autoajuda. Invejo também as madames e o bando de adolescentes que agora está fazendo volume no shopping, achando que ganharam mais um tempo de férias. Pelo visto, o surto mais sério não é o da gripe A, que, pra essa, já tem remédio, ainda que caro. O ministério da saúde precisa advertir que umbiguismo faz mal à saúde.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Metaconstatação


Arte de Andy Warhol


O ato de relativizar clichês
Não acaba sendo um?

Ou, como diria meu pai,
O calcanhar-de-aquiles
De Aquiles
É o próprio calcanhar.

segunda-feira, 15 de junho de 2009



Não vem daí
Um zunido mudo que acompanha
O reflexo azulado na janela?

É daí
A respiração suspensa
Por um beijo barato de novela?

É daí
A hipnose que cega a palavra do livro
Que esfria o calor da conversa?

Que epidemia é essa
Que liga a tevê
E desliga o pensamento?

domingo, 31 de maio de 2009

quarta-feira, 27 de maio de 2009

O novo do velho


( Gravura de Alice Soares)

Well, eu deveria estar nesse momento planejando minhas aulas, mas esbarrei no meu caderno de poesia mais recente e uma fagulhazinha se reacendeu. Acho que não é em vão, pois ando trocando ideias (pois é, agora sem acento) com alguns amigos criativos, e isso também acaba mexendo um pouco com o que está latente quase que constantemente. E por que não parar um instante e dar um espacinho pra loucura? Viva ela, que nos mantém vivos! E como eu tenho esse espaço aqui mesmo (nem sei se ainda passa alguma alma por aqui... olá?), aí vai o que acabou de sair quentinho do forno movido a fosfato:

Oblíquos

Uma linha no caderno, pernas tortas na esquina
Palavra que não, suspiro que sim
Em mim, em ti
Nos pronomes a mais, roupas de menos
Nas noites banais, olhos amenos.

Talvez um gesto, talvez um minuto
Talvez um copo, um papo, um cigarro
E ficamos assim:
Eu na minha sombra e tu na minha cabeça.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Concurso


As inscrições para o concurso Poemas nos Ônibus estão abertas e a metida aqui já levantou o dedo: "eu, eu!" É lógico que não sou nenhuma Florbela Espanca da vida, mas vale a tentativa. Inscrevi o poema que se segue. Será que vai colar?

Tráfego

Passam por mim
Os ipês da primavera que florescem no asfalto
Esquecem, por um momento,
Da cinza da fumaça
Das caras pálidas que trafegam pela rua
Do ronco ranzinza dos motores.

Eu, passageira,
Pouso meu olhar sobre os ipês
E esqueço do meu cenho cinza
Dos dias pálidos que trafegam pela minha vida
Do ronco ranzinza dos meus pensamentos.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Versos capitulinos


(Pra quem, como eu, é fã do Machado)

Pára entre meios segundos
O tempo aluado
De um cínico machadiano qualquer
Que ri o riso irônico
De quem mostra os dentes
Sem sorrir com os olhos:

A realidade, caro leitor,
Não se encerra nas páginas de um livro.

domingo, 8 de junho de 2008

Aniversário


(Mui pretencioso auto-retrato de não sei quando)

Estou para fazer aniversário a qualquer momento. Sim, porque hoje não significa nada dizer “uma semana” ou coisa que o valha, porque o tempo desinflacionou, “hipoinflacionou”. O tempo não é quase nada hoje, um fragmentozinho, um suspiro do relógio e pronto, já passou.

E por isso mesmo que eu não comemoro o tempo no meu aniversário.

Se estou fazendo vinte e seis, ou mesmo doze, quinze, dezoito, quarenta e seis... tant pis. O que comemoro mesmo é a própria comemoração, é a festa, o dia que é meu, metacomemoração! Portanto, marquem aí: dia 14 - esse átimo - é o MEU dia, assim mesmo, bem narcísica e egolátrica como criança na fase do “meu” (beijo pro Pedro e pra Duda). Quem quiser me dar os parabéns que esqueça do tempo, porque, nesse dia, meu relógio não vai funcionar. Me dê os parabéns pelo momento todo: pelo dia não temporal e sim pela chuva que vai cair (sempre chove no meu aniversário), pelo que estarei fazendo, pelo quebra-cabeças que me compõe e por todos os et ceteras que se quer dizer. Eu sou que nem meu pai, que gosta de bolo, balão, bastante gente, presente, música, bagunça e lembrancinha. Eu sou também como o Pedro que, na sua segunda primavera, gritava pro primeiro que passasse: “Viva o Pedro!”

E quem não lembrar que não se culpe, porque não tenho a mais oblíqua envergadura moral pra cobrar...

sábado, 7 de junho de 2008

Poema no ônibus


(Foto que tirei não sei onde. Também é antiga)

Como é bom ser surpreendida pelas palavras! Tava esses dias andando de ônibus e li essa poesia, que achei fantástica:

Dias melhores verão

Desfruta
Sem pressa
Essa tua primavera
Quando o verão chegar
E fores fruto maduro
Vou te colher
Com apuro
E te comer
De colher

Germana Konrath