Terça-feira, 23 de Junho de 2009

Metaconstatação


Arte de Andy Warhol


O ato de relativizar clichês
Não acaba sendo um?

Ou, como diria meu pai,
O calcanhar-de-aquiles
De Aquiles
É o próprio calcanhar.

Segunda-feira, 15 de Junho de 2009



Não vem daí
Um zunido mudo que acompanha
O reflexo azulado na janela?

É daí
A respiração suspensa
Por um beijo barato de novela?

É daí
A hipnose que cega a palavra do livro
Que esfria o calor da conversa?

Que epidemia é essa
Que liga a tevê
E desliga o pensamento?

Domingo, 31 de Maio de 2009

Primeiros posts

Hum... agora que eu vi... os primeiros posts do blog até que estão bem divertidos!

Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

O novo do velho


( Gravura de Alice Soares)

Well, eu deveria estar nesse momento planejando minhas aulas, mas esbarrei no meu caderno de poesia mais recente e uma fagulhazinha se reacendeu. Acho que não é em vão, pois ando trocando ideias (pois é, agora sem acento) com alguns amigos criativos, e isso também acaba mexendo um pouco com o que está latente quase que constantemente. E por que não parar um instante e dar um espacinho pra loucura? Viva ela, que nos mantém vivos! E como eu tenho esse espaço aqui mesmo (nem sei se ainda passa alguma alma por aqui... olá?), aí vai o que acabou de sair quentinho do forno movido a fosfato:

Oblíquos

Uma linha no caderno, pernas tortas na esquina
Palavra que não, suspiro que sim
Em mim, em ti
Nos pronomes a mais, roupas de menos
Nas noites banais, olhos amenos.

Talvez um gesto, talvez um minuto
Talvez um copo, um papo, um cigarro
E ficamos assim:
Eu na minha sombra e tu na minha cabeça.

Quinta-feira, 19 de Junho de 2008

Concurso


As inscrições para o concurso Poemas nos Ônibus estão abertas e a metida aqui já levantou o dedo: "eu, eu!" É lógico que não sou nenhuma Florbela Espanca da vida, mas vale a tentativa. Inscrevi o poema que se segue. Será que vai colar?

Tráfego

Passam por mim
Os ipês da primavera que florescem no asfalto
Esquecem, por um momento,
Da cinza da fumaça
Das caras pálidas que trafegam pela rua
Do ronco ranzinza dos motores.

Eu, passageira,
Pouso meu olhar sobre os ipês
E esqueço do meu cenho cinza
Dos dias pálidos que trafegam pela minha vida
Do ronco ranzinza dos meus pensamentos.

Terça-feira, 17 de Junho de 2008

Versos capitulinos


(Pra quem, como eu, é fã do Machado)

Pára entre meios segundos
O tempo aluado
De um cínico machadiano qualquer
Que ri o riso irônico
De quem mostra os dentes
Sem sorrir com os olhos:

A realidade, caro leitor,
Não se encerra nas páginas de um livro.

Domingo, 8 de Junho de 2008

Aniversário


(Mui pretencioso auto-retrato de não sei quando)

Estou para fazer aniversário a qualquer momento. Sim, porque hoje não significa nada dizer “uma semana” ou coisa que o valha, porque o tempo desinflacionou, “hipoinflacionou”. O tempo não é quase nada hoje, um fragmentozinho, um suspiro do relógio e pronto, já passou.

E por isso mesmo que eu não comemoro o tempo no meu aniversário.

Se estou fazendo vinte e seis, ou mesmo doze, quinze, dezoito, quarenta e seis... tant pis. O que comemoro mesmo é a própria comemoração, é a festa, o dia que é meu, metacomemoração! Portanto, marquem aí: dia 14 - esse átimo - é o MEU dia, assim mesmo, bem narcísica e egolátrica como criança na fase do “meu” (beijo pro Pedro e pra Duda). Quem quiser me dar os parabéns que esqueça do tempo, porque, nesse dia, meu relógio não vai funcionar. Me dê os parabéns pelo momento todo: pelo dia não temporal e sim pela chuva que vai cair (sempre chove no meu aniversário), pelo que estarei fazendo, pelo quebra-cabeças que me compõe e por todos os et ceteras que se quer dizer. Eu sou que nem meu pai, que gosta de bolo, balão, bastante gente, presente, música, bagunça e lembrancinha. Eu sou também como o Pedro que, na sua segunda primavera, gritava pro primeiro que passasse: “Viva o Pedro!”

E quem não lembrar que não se culpe, porque não tenho a mais oblíqua envergadura moral pra cobrar...